CRÔNICASREFLEXÕES

O menino que queria falar com o papai Noel.

    — Eu acabei de passar pelo ano mais complicado da minha vida. Nada do que eu planejei deu muito certo.

    — As minhas relações amorosas, pessoais, de trabalho, estão mais complicadas que o normal.

    — Eu nem vou começar a pensar no meu lado financeiro, ou então eu vou começar a chorar aqui mesmo.

    Pensava eu, enquanto estava no metrô a caminho do shopping.

    O Shopping.

    As lojas todas enfeitadas, luzes piscando por todos os lados, o clima do Natal querendo entrar pouco a pouco, já que estava no começo de dezembro.

    Eu não sentia que tinha algo a comemorar. 

    Eu não tinha clima para nada.

    Em meus pensamentos pairavam apenas reclamações e frustrações. 

    Na verdade, eu queria sumir da terra se eu pudesse.

    Às vezes quando estou um pouco entediado gosto de andar no shopping. 

    Não compro nada, apenas vejo as coisas, como algo, de vez em quando testo umas roupas. Assim eu mato o meu tempo.

    Falando em matar tempo, faz algum tempo que eu estou só matando o tempo.

    Mas chega de pensar nisso. 

    Eu já tenho problemas demais para resolver, não quero cair em uma crise existencial às 15h00 de uma tarde de segunda feira de um shopping lotado de crianças querendo tirar foto com o papai Noel.

    A casa do papai Noel.

    Sentei-me em um banco e fiquei observando uma fila que não tinha fim. 

    Fiquei pensando comigo mesmo: “— As pessoas perdem o tempo delas nessas filas para tirar foto com um homem fantasiado.”

    De repente, as muitas vozes e pensamentos aleatórios da minha cabeça foram interrompidos com o choro de uma criança, que se sentou ao meu lado acompanhado de uma senhora.

    Ela tentava acalmar ele e eu fiquei ali do lado assustado observando.

    —  Vó, eu tenho que ver o papai Noel, eu preciso que ele leve o meu recado.

    — Filho, eu falei pra você escolher, ou o brinquedo ou a foto com o papai Noel.

    — Mas eu quero, vó.

    A criança estava irredutível, mas não era um choro por birra, era um choro doído.

    Eu fiquei ali do lado só observando e calmamente tomando o meu sorvete. 

    Pensei comigo mesmo: “— Vim pra cá buscar paz e se senta do meu lado uma criança aos berros. Devo ter jogado pedra na cruz.”

    — Vó, por favor!

    — Filho, eu já falei que não tenho dinheiro.

    Pelo que entendi ali por cima só observando e julgando, acho que ele queria visitar a casa do papai Noel, mas a sua vó não tinha dinheiro. 

    Eu nem sabia que era pago, eu achava que era de graça, só chegar, ficar na fila e tirar a foto.

    Natal virou uma publicidade sem fim. Por isso eu odeio o Natal.

    Já faz alguns anos que eu não comemorava o Natal, pra mim era só mais um dia como outro.

    Uma missão para o bom velhinho.

    — Maurinho, vai lá comprar um sorvete para você, enquanto a vovó descansa um pouco aqui. Minhas pernas doem, meu filho.

    — Moço, me desculpe, sentei-me do seu lado, com ele chorando…

    — Que isso, não se preocupe. Estou aqui só de bobeira, mas porque ele tá chorando?

    — Ele está numa fase difícil, a mãe dele faleceu faz 8 meses e desde então ele está bastante sensível para tudo.

    O garotinho veio correndo com um sorvete, assim ele parou de chorar e sentou-se um pouco mais quieto do meu lado.

    — Moço, você vai na casa do papai Noel?

    — Eu? Não! Vou ficar só por aqui mesmo. Não gosto muito do Natal.

    — Já eu gosto bastante, moço, eu ganho vários presentes dos meus tios.

    — Ah! Então por isso você estava chorando pra ir lá? Queria pedir um presentinho pro Papai Noel?

    — Não, queria mandar um recado.

    — Mandar um recado?

    — É, meu pai disse que posso pedir tudo pro papai Noel e eu queria mandar um recado.

    — E pra quem você quer mandar um recado?

    — Pra minha mãe, que foi morar no céu.

    Naquele momento era como se o mundo tivesse parado. 

    Um silêncio se fez dentro de mim.

    Fora de mim. 

    Eu fiquei sem palavras.

    — Mas daí minha avó disse que não tem mais dinheiro, aí ano que vem a gente vem de novo e eu mando o recado.

    — Moço, vê se pode, ele colocou na cabeça dele que tem que dar um recado pro papai Noel. Só que eu fui lá ver tá muito caro, a gente teve muitos gastos nos últimos meses.

    Aquela senhora me explicou que a mãe do garotinho, havia falecido de um câncer. Foram alguns anos de luta e infelizmente ela não resistiu.

    Ele havia ficado com o pai e quando o pai ia ao trabalho, a avó cuidava dele.

    Maurinho.

    Eu fiquei devastado com tudo aquilo, nas últimas semanas eu só reclamei, mas eu estava com saúde, minha família estava com saúde, meus problemas eram tão pequenos diante daquilo. 

    Não que os meus sentimentos não sejam importantes, mas a gente reclama demais, às vezes porque algumas coisas não dão certo, a gente deixa de olhar pra tudo que tem dado certo.

    As dores, as dificuldades, as pessoas mal-intencionadas que passam pelo nosso caminho, destroem tanto a gente, que aos poucos parece que a gente vai ficando mais duro, mais frio, mais pesado.

    — Qual é o seu nome?

    — Maurinho, uai.

    — Olha Maurinho, você vai falar com o papai Noel, porque o tio vai te dar um presente de Natal.

    O sorriso que se abriu no rostinho daquele garotinho é indescritível. 

    — Vó, o tio disse que eu vou falar com o papai Noel.

    — Moço, não precisa, não se preocupe, é muito caro.

    — Não se preocupe você. Deixa-me fazer isso, eu quero muito.

    O ticket.

    Eu fui até o local onde comprava os ingressos e comprei tudo que o garotinho tinha direito. Eu não tinha dinheiro também, mas eu tinha cartão de crédito e parcelei em várias vezes.

    Apesar de toda a dor que aquele garotinho estava sentindo de saudades da mãe, a sua inocência em acreditar que o papai Noel pudesse levar um recadinho pro céu, me tocaram de uma forma tão profunda.

    Ele tinha um problemão e estava resolvendo de uma forma tão leve.

    Isso que nos difere das crianças. A gente pesa demais as coisas. Elas deixam tudo mais leve de ser resolvido.

    Dei os ingressos para a avó do garotinho e fiquei no banco próximo a uma árvore de Natal observando a empolgação dele, enquanto ele tirava da bolsa da sua avó um desenho que havia feito na escola e queria que o papai Noel levasse para sua mãe no céu.

    Uma lição.

    Não pude ouvir o que o garotinho disse ao papai Noel, mas pelo abraço demorado que o papai Noel deu nele, eu posso imaginar que de alguma forma ele mudou algo naquele senhor que estava ali também.

    Ele saiu correndo, feliz, contando que havia tirado foto com o papai Noel e mandado um recadinho pra mamãe dele que estava no céu.

    Aquele garotinho que chegou ali chorando, já não era o mesmo.

    — Maurinho, Você não vai agradecer ao moço?

    Disse a sua avó enquanto segurava as fotos que ele havia tirado com uma lágrima escorrendo do rosto.

    — Moço, muito obrigado, ontem à noite eu rezei com meu pai pra Deus, pra falar com o papai Noel e eu falei.

    Ali na frente dele, eu só dei um sorriso e fiquei olhando-o todo feliz, indo embora com a sua avó.

    Ressignificando meu Natal.

    Fui ao banheiro do shopping e desabei. Chorei tanto.

    Eram tantas dores saindo com as lágrimas, mas também de felicidade pelo aprendizado.

    Eu sabia que a partir dali o meu Natal teria um sentido. 

    Eu que tantas vezes fugi do Natal, o encontrei de novo na história de um garotinho de mais ou menos 7 anos que estava chorando no shopping.

    Agora ao invés de ficar reclamando pelas coisas que não deram certo, eu termino o ano agradecendo a Deus pelas coisas que deram muito certo em minha vida.

    Respostas.

    Natal é um tempo da gente lembrar que um dia uma criança nasceu com a promessa de mudar a vida do mundo. E ele mudou. Salvou todo mundo com a própria vida.

    A gente sempre pede de alguma forma respostas para Deus e ele dá, a gente só precisa entender a forma com que ele fala com a gente.

    Para o Maurinho que pediu enquanto rezava para Deus ajudar ele a falar com o papai Noel, talvez eu tenha sido essa resposta, por ter tido a sensibilidade de ajudar.

    Para mim, o Maurinho foi a resposta que eu havia pedido enquanto orava na noite anterior antes de dormir.

    As respostas estão em todos os lugares.

    Aproveite o Natal para se reconectar com Deus e encontrar as suas.

    Feliz Natal.

    Obrigado Deus, talvez o ano não tenha sido como eu planejei, mas você me trouxe até mais um Natal em segurança. Estou bem de saúde, minha família está com saúde. Logo, logo vem um novo ano e eu terei novas possibilidades de conquistar tudo que eu quero. Obrigado por me ensinar que o Natal é a renovação dos sonhos.

    @WellasDiniz

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    Wellas Diniz
    Escritor, produtor audiovisual, criador de conteúdo digital, editor de vídeos para cinema, TV e internet. Amo ler e escrever sobre motivação e acredito que uma boa troca de ideias é capaz de transformar o dia de alguém.

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    4 Comentários

    1. 😭😭😭😭 pfto

    2. Adorei, sua crônica de lançamento é inspiradora, continue!!!!

      1. ahhhhhhhhhh muito obrigado por ter lido.. Que apoio.. Fico feliz que tenha gostado.. ainda mais que sei o quanto vc é exigente hahaha… Obrigado mesmo : )

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