Eu acabei de passar pelo ano mais complicado da minha vida. Nada do que eu planejei deu muito certo. As minhas relações amorosas, pessoais e de trabalho estão mais complicadas do que o normal e eu nem vou começar a pensar no meu lado financeiro, senão eu desabo e começo a chorar aqui mesmo.
Era o que eu pensava enquanto estava no metrô a caminho do shopping, numa tarde de segunda-feira de começo de dezembro.
As lojas já estavam todas enfeitadas, com luzes piscando por todos os lados e aquele clima natalino tentando entrar aos poucos. Mas eu não sentia que tinha algo a comemorar. Não tinha clima para nada. Em meus pensamentos pairavam apenas reclamações, frustrações e, se eu pudesse, queria apenas sumir.
Às vezes, quando estou meio entediado ou querendo fugir da realidade, gosto de andar pelo shopping. Não compro nada, apenas vejo as vitrines, como alguma besteira e testo umas roupas para matar o tempo. Pensando bem, já faz um tempo que ando apenas matando o tempo. Mas chega. Eu já tinha problemas demais para resolver e não queria cair em uma crise existencial às 15h00 de uma tarde lotada de crianças querendo tirar foto com o Papai Noel.
O choro na praça de eventos.

Sentei em um banco próximo à decoração natalina e fiquei observando uma fila que parecia não ter fim. Fiquei pensando comigo mesmo: “As pessoas perdem o tempo delas nessas filas para tirar foto com um homem fantasiado.”
De repente, as muitas vozes e pensamentos aleatórios da minha cabeça foram interrompidos pelo choro dolorido de uma criança. O garotinho se sentou no mesmo banco, ao meu lado, acompanhado de uma senhora que tentava acalmá-lo de todas as formas. Eu fiquei ali perto, meio assustado, observando a cena enquanto tomava meu sorvete.
— Vó, eu tenho que ver o Papai Noel! Eu preciso que ele leve o meu recado! — dizia o menino, entre soluçadas.
— Meu filho, eu já falei para você escolher: ou o brinquedo ou a foto com o Papai Noel. Eu não tenho dinheiro — respondeu a avó, com a voz cansada.
A criança estava irredutível, mas não era um choro de birra. Era um choro doído, de rasgar o peito. Confesso que na hora cheguei a pensar: “Vim para cá buscar paz e senta do meu lado uma criança aos berros. Devo ter jogado pedra na cruz.”
Pelo que entendi ali por cima, julgando a situação, ele queria visitar a casa do Papai Noel, mas a avó não tinha como pagar. Eu nem sabia que aquele espaço era pago. Para mim, era só chegar, pegar a fila e tirar a foto. Pensei: o Natal virou uma publicidade sem fim. É por isso que eu odeio essa época. Há anos eu não comemorava o Natal; para mim, era só mais um dia comum no calendário.
Uma missão para o bom velhinho.

A avó, visivelmente cansada, tentou mudar o foco do garoto:
— Maurinho, vai lá comprar um sorvete para você enquanto a vovó descansa um pouco as pernas aqui.
Em seguida, ela se virou para mim:
— Moço, me desculpe sentar ao seu lado com ele chorando assim…
— Que isso, senhora, não se preocupe! Estou aqui só de bobeira. Mas por que ele está chorando tanto?
— Ele está passando por uma fase muito difícil — explicou ela, baixinho. — A mãe dele faleceu há 8 meses e, desde então, ele ficou extremamente sensível para tudo.
Naquele momento, o garotinho voltou correndo segurando a casquinha. Com o sorvete na mão, ele se acalmou, sentou um pouco mais quieto do meu lado e me olhou curioso:
— Moço, você vai na casa do Papai Noel?
— Eu? Não! Vou ficar só por aqui mesmo. Não gosto muito do Natal.
— Já eu gosto bastante, moço! Eu ganho vários presentes dos meus tios.
— Ah, entendi! Então por isso você estava chorando para ir lá? Queria pedir um presente para o Papai Noel?
— Não… Eu queria mandar um recado.
— Mandar um recado? Para quem?
— Para a minha mãe, que foi morar no céu.
Naquele instante, foi como se o mundo tivesse parado ao meu redor. Um silêncio absoluto se fez fora e dentro de mim. Eu fiquei completamente sem palavras.
— Meu pai disse que eu posso pedir tudo para o Papai Noel, e eu queria pedir para ele levar um recado para ela — continuou o menino, com a pureza que só as crianças têm. — Mas a minha avó disse que não tem dinheiro agora. Ano que vem a gente vem de novo e eu mando.
A senhora me olhou com os olhos marejados e explicou que a filha tinha lutado contra um câncer por anos, mas infelizmente não resistiu. O garotinho estava morando com o pai e, enquanto o pai trabalhava, ela cuidava dele.
O presente e o desenho.

Eu fiquei devastado. Nas últimas semanas eu só soube reclamar, mas eu estava com saúde, a minha família estava com saúde e os meus problemas eram insignificantes diante daquela dor. Não que os meus sentimentos não fossem válidos, mas a gente reclama demais. Por causa de algumas coisas que não dão certo, a gente deixa de olhar para tudo o que tem dado certo. As frustrações da vida vão deixando a gente mais duro, mais frio e mais pesado.
— Qual é o seu nome? — perguntei a ele.
— Maurinho, uai!
— Olha, Maurinho… Você vai falar com o Papai Noel hoje, porque o tio vai te dar esse presente de Natal.
O sorriso que se abriu no rosto daquele garoto é algo indescritível. A avó tentou recusar, dizendo que era muito caro e que não precisava, mas eu insisti. Fui até a bilheteria e comprei o pacote completo com tudo o que ele tinha direito. Eu também não estava esbanjando dinheiro, mas passei no cartão de crédito e parcelei.
Apesar de toda a dor da saudade, a inocência do Maurinho em acreditar que o velhinho de barba branca poderia levar uma mensagem para o céu me tocou na alma. Ele tinha um problema gigantesco e estava lidando com ele de uma forma tão leve. É isso que nos difere das crianças: a gente pesa demais a vida; elas deixam tudo mais leve.
Entreguei os ingressos para a avó e me sentei em um banco próximo para assistir de longe. Vi o Maurinho tirando da bolsa da avó um desenho dobrado, feito por ele na escola, que ele queria entregar em mãos para o Papai Noel mandar para a mãe no céu.
Não pude ouvir o que ele disse ao sentar no colo do Papai Noel, mas pelo abraço demorado e apertado que o velhinho deu nele, imagino que algo mudou naquele homem também. O menino saiu correndo, radiante, contando para a avó que tinha conseguido entregar a foto e o recado.
— Maurinho, você não vai agradecer ao moço? — chamou a avó, segurando a foto impressa enquanto uma lágrima escorria pelo seu rosto.
O garoto veio até mim, com os olhos brilhando:
— Moço, muito obrigado! Ontem à noite eu rezei com meu pai pedindo para Deus me ajudar a falar com o Papai Noel… E eu falei!
Eu não consegui dizer nada. Apenas dei um sorriso e fiquei olhando ele ir embora todo feliz, de mãos dadas com a avó.
As respostas que a gente pede.

Depois que eles sumiram na multidão, fui até o banheiro do shopping e desabei. Chorei como há muito tempo não chorava. Eram lágrimas de dor saindo, mas também de uma felicidade profunda pelo aprendizado.
Eu, que por tanto tempo fugi do Natal, reencontrei o sentido dele na história de um garotinho de mais ou menos uns 7 anos. Agora, em vez de reclamar pelas coisas que não deram certo, termino o ano agradecendo pelas coisas que deram muito certo na minha vida.
O Natal é o momento de lembrar que uma criança nasceu com a promessa de transformar o mundo e transformou. A gente sempre pede respostas para Deus, e Ele responde. A gente só precisa aprender a prestar atenção na forma como Ele fala com a gente.
Para o Maurinho, que rezou na noite anterior pedindo para falar com o Papai Noel, talvez eu tenha sido a resposta por ter tido a sensibilidade de ajudar. Para mim, o Maurinho foi a resposta exata da oração que eu tinha feito antes de dormir. As respostas estão em todos os lugares.
Talvez o meu ano não tenha sido exatamente como planejei, mas cheguei até aqui em segurança. Tenho saúde, minha família está bem e um novo ano sempre traz novas possibilidades. A história do Maurinho me ensinou que o Natal não é sobre presentes: é sobre a renovação dos nossos sonhos e da nossa gratidão.
💬 E por aí, você já viveu algum encontro inesperado que mudou a sua forma de enxergar a vida? Se essa história te tocou de alguma forma, deixe seu comentário aqui embaixo! 🧡
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Que post lindo! É incrível como o amor pode acontecer em momentos em que a gente menos espera. Vou lembrar dessa história de coração quente até o fim do ano ❤
🧡🧡🧡
Que linda história!
🧡🧡🧡
😭😭😭😭 pfto
obrigado meu bem <3
Adorei, sua crônica de lançamento é inspiradora, continue!!!!
ahhhhhhhhhh muito obrigado por ter lido.. Que apoio.. Fico feliz que tenha gostado.. ainda mais que sei o quanto vc é exigente hahaha… Obrigado mesmo : )