Estalos de dedos: 1, 2, 3… Batidas de pé: 4, 5, 6… Os dois juntos: 7, 8, 9!
— Pá – pá – páh!
Ela não parava de cantar por dentro.
Mas, quando a voz tentava sair, só escapava um tímido “pá – pá – páh”. A Lara era uma cigarra meio diferente. Ela simplesmente não sabia cantar.
Mesmo assim, todo dia ela corria para espiar o coral da cidade, que ensaiava para a grande Festa Anual das Cigarras. Ficava ali, agachadinha, olhando pelas frestas da porta… e, por dentro, a música rodava inteira na cabeça dela.
Estalos de dedos: 1, 2, 3… Batidas de pé: 4, 5, 6… Os dois juntos: 7, 8, 9!
— Pá – pá – páh!
A melodia estava todinha dentro da sua cabeça, mas ela não sabia uma forma de colocar pra fora.
— Lara?
— Oi? — respondeu ela, tomando um susto.
— O que você tá fazendo aí abaixada?
— Tô procurando meus brincos… caíram por aqui — mentiu Lara, com o coração acelerado.
Risadinhas ao fundo. Era o grupinho da Lisa, a cigarra mais popular da cidade.
— Ela só tá espiando. Já que não canta nada mesmo… — disparou Lisa.
As outras riram. A Lisa adorava essas risadinhas pra se amostrar.
— Já eu — continuou Lisa, cheia de si — canto até dormindo. Fui escolhida como a vocalista principal este ano. Sucesso total!
— Que bom. Fico feliz por você — respondeu Lara, de cabeça baixa.
Mas a Lisa não parou:
— Deve ser bem difícil pra sua família, né? Todo mundo no palco… e você lá, sem dar orgulho pra ninguém.
— Você tá muito enganada, Lisa — disse a voz firme do pai de Lara, que vinha chegando. — A Lara é o nosso maior orgulho. E tem muitos talentos que a gente se orgulha, sim.
— Pai! — disse Lara, correndo pro abraço dele.
O grupinho foi saindo de perto, deixando só os dois ali. Ele limpou uma lágrima no rosto da filha.
— Pai… ela tem razão. Eu sou a única cigarra que não canta. Não dou orgulho pra vocês.
— Filha… claro que dá. Você é o nosso maior orgulho. O meu e o da sua mãe, que tá lá no céu sorrindo pra você. Ser diferente não é ruim. Só porque todo mundo espera que você seja de um jeito, não quer dizer que você precisa ser.
— Obrigada, papai… mas…
— Mas nada, filha. Você tem outros talentos. Pode não cantar… mas batuca como ninguém! E nem todo mundo sabe fazer isso, viu?
Lara sorriu. Pela primeira vez, sentiu que tava tudo bem ser do jeito dela.
Bem nessa hora, o maestro saiu do ensaio desesperado:
— A apresentação vai ser cancelada! Nosso pianista ficou doente e não vai poder tocar!
— Pai… — disse Lara, com os olhos brilhando — vem comigo! Tive uma ideia!
Ela puxou o pai pela mão e foi direto no maestro.
— Senhor maestro… eu sei a música inteira!
— Ah, minha querida, que bom pra você. Mas isso ajuda em quê? Eu preciso de alguém pra tocar piano.
Lara fechou os olhos, respirou fundo e puxou a melodia:
Estalos de dedos: 1, 2, 3… Batidas de pé: 4, 5, 6… Os dois juntos: 7, 8, 9!
— Pá – pá – páh! Pá – pá – páh!
O maestro arregalou os olhos. Chamou a Lisa e pediu:
— Canta o seu trecho agora, por favor.
A Lisa, sem entender nada, cantou. E a batida da Lara encaixou certinho. Logo o coral inteiro saiu pro lado de fora e se juntou:
As vozes de um lado, os estalos e batidas da Lara do outro. Tudo fazendo sentido, como um encaixe perfeito.
— Você tá contratada! — disse o maestro. — Vai ser a nossa nova percussionista!
No dia da apresentação, lá estava a Lara. Com frio na barriga, mas feliz da vida. Na primeira fileira, os olhos do pai brilhavam de orgulho.
E quando a música começou, a Lara comandou o show no palco:
Estalos de dedos: 1, 2, 3… Batidas de pé: 4, 5, 6… Os dois juntos: 7, 8, 9!
— Pá – pá – páh!
E o coral entrava por cima: “Pá, pá, páh…”
Estalos de dedos: 1, 2, 3… Batidas de pé: 4, 5, 6… Os dois juntos: 7, 8, 9!
— Pá – pá – páh!
Foi o show mais lindo da história da cidade.
— Viu, filha? — disse o pai no final, abraçando ela forte. — Não é porque você não faz o que todo mundo faz que não tem o seu valor. Ser diferente é legal demais. Nunca mais deixa ninguém te fazer sentir menor por isso.
— Obrigada, papai.
— Lara? — chamou a mãe da Lisa, trazendo a filha do lado. — A Lisa tem uma coisa pra te falar, né, Lisa?
— Oi, Lara. Mandou bem demais hoje. A gente se vê no ensaio semana que vem?
— Claro! Estarei lá!
E assim terminou mais um dia na cidade das cigarras, onde a música nunca para.
Estalos de dedos: 1, 2, 3… Batidas de pé: 4, 5, 6… Os dois juntos: 7, 8, 9!
— Pá – pá – páh!
“Pá pá páh…”
— Pá – pá – páh!
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